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terça-feira, 27 de junho de 2017

Bife sola-do-sapato

Acho piada, nos restaurantes, à pergunta que não deveria ser de circunstância, de "se estava tudo bom". Esta pergunta, formulada por alguém que nos serve à mesa e onde na língua de Camões não encontramos uma palavra sequer para os nomear, só duas, do tipo, "oh fachavor", ou três, do género, "pssst por favor", é pertinente mas deixou, nos dias que correm, e de uma forma geral em todos os restaurantes, de ser essencial. E "estar tudo bom" deveria fazer parte da essência de um restaurante, da sua missão última, da mesma forma que uns sapatos terem qualidade é o anseio último das empresas de calçado.
Hoje, num em Famalicão, comi o pior bife de que tenho memória, em pelo menos 10 anos de esforço mental contínuo para passar da qualquer-coisa que sou a vegetariano qualquer-coisa que almejo ser.
Ao "então, estava tudo bom", respondi com a maior das sinceridade que a pergunta me merecia: Não. Estava muito mau. De 0 a 10 não lhe consigo atribuir mais de 3.
Do senhor "oh, fachavor" ouvi qualquer coisa do género, "ok, normalmente os nossos bifes são bons", enquanto levantava o prato para sair de seguida, perdendo a oportunidade para esmiuçar o sufrágio.
Ainda mantive a esperança que o prato cheio de restos daquilo que na teoria deveria ser um bife pintas representasse um alerta para o gerente do restaurante, já que do sr. "Oh fachavor" não esperava coisa alguma.
Que nada!
Este restaurante em Famalicão tem um espaço ambiente de qualidade mas a sua cozinha é do mais fraco que se faz naquela terra de bons pratos.
Provavelmente nada do que disse é significativo ou representa a realidade daquele espaço. Eu é que sou um azarado nestas coisas, e o bife sola-do-sapato toca-me sempre a mim.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BES, Judite e Carolina Patrocínio

Nas últimas semanas, na minha rede de amigos do facebook, que estou seriamente a ponderar vistoriar, revisar, adaptar, limpar, falou-se da morte do filho de Judite de Sousa e das mamadas da filha(?) recém-nascida de Carolina Patrocínio, bem como do corpo fantástico da mãe, nada normal para quem acabou de parir.
Compreendo e respeito os dois momentos, a dor da mãe Judite e a felicidade da mãe Patrocínio. Dois momentos de sentimento intenso e tão antagónico, o da vida que, como uma chama desprevenida se apaga com o vento, e o outro, o da vida que se inicia com a mesma suavidade com que o presente se deixa transformar em passado. Como disse, compreendo os dois momentos e partilho, ainda que com a mesma brevidade com que um partícula de luz me trespassa o pensamento, um pouco dos dois. Eu sei que a última frase pode parecer cruel, mas, infelizmente, este é o nível de compaixão que sou capaz de atingir ou dedicar a pessoas que não conheço.
O que me custa compreender, e que, imagino, nem a maior das compaixões do mundo conseguiria suportar, é o comportamento de alguns dos meus amigos, os da rede virtual, com as constantes partilhas, likes e comentários, ora lamechas, ora de extrema felicidade, a cada um dos factos, como se tivessem sido eles que se pariram. É estupidamente irritante! Grupos como os que diariamente me aparecem, e são sugeridos por acção destes meus amigos, do tipo, Força Judite, Judite SOUSA estamos contigo, Apoio a Judite, são entretimentos de quem precisava era de um trabalho a sério para se entreter. A sério!

Não compreendo como se consegue comentar tanto a morte e as mamadas de quem ainda não está propriamente na plenitude da vida, e não haver um único comentário sequer aos momentos actuais, à vida, à fatalidade de sermos portugueses, a fragilidade de sermos completamente roubados por grupos mafiosos da alta finança, por políticos corruptos, por interesses obscuros, por uma justiça de dar voltas ao estômago. Os meus amigos comentando a morte ou a pré-vida, esquecem-se do que realmente interessa, da vida. São raros os meus amigos que comentam o facto de termos mais um banco para resgatar, mais um grande roubo para reparar. Das duas uma, ou andam distraídos ou, então, como a avestruz, tentam esconder a cabeça na areia com estas coisas banalidades, na esperança de que a coisa passe. Das duas alternativas, venha o diabo e escolha!

terça-feira, 10 de junho de 2014

RUM e a Praça do Município


Caros senhores, sou de Guimarães e ouvinte assíduo do Praça do Município, aos sábados, por volta do meio-dia, quando normalmente faço a viagem de minha casa para casa dos meus pais, de carro. Não tenho muito a dizer sobre o programa, ou, melhor, tudo o que pudesse dizer não iria contribuir para o que já deve ser comummente aceite como um programa de grande qualidade. Eu gosto do programa e só tenho pena que não exista algo semelhante nas rádios de Guimarães. Em Guimarães, posso estar mal informado, mas julgo ainda vivermos um pouco a ditadura da informação.

Enfim, sem me alongar muito mais, vou descrever ao que vim. 

Não conhecendo pessoalmente, nem mesmo por fotografias, nenhum dos intervenientes do Praça, posso dizer que lhes reconheço a voz e que através dela sou capaz antecipar um estilo, um nível intelectual, um estatuto social. Isto sou eu que nasci com aptidão para antropólogo mas que a vida decidiu inquinar desde jovem e  o então antropólogo de devoção virou informático, ou algo parecido, de profissão.
As minhas palavras vão a partir daqui para a única interveniente feminina do programa, uma tal de PN, acho que é assim que se chama - deve ser a mais recente aquisição do Praça.
 A senhora é de uma arrogância incrível. Quem a ouve deste lado, e que, como eu, não lhe conhece o boneco, de tanta arrogância que traz na voz (e tão vazia argumentação, diga-se sem rodeios) fica a imaginar que a PN deve ser assim uma mulher fisicamente ultra apetecível. Um avião, como se diz no calão mais erudito da minha terra. É que arrogância e nariz empinado só têm propriedade quando o boneco é assim bastante acima do padrão. Num boneco mediano, a arrogância passa de feitio a defeito e o nariz empinado nada mais é que o indício de princípios de trombose. Agora, numa mulher jeitosa, fica tão bem um nariz empinado como um sapato de tacão alto contra a parede. Num mulherão, a argumentação até pode ser vazia, as ideias pobres, a dificuldade com as matemáticas demasiado evidentes, que tudo isso é compensado pela figura, pelo estilo, pela arrogância. A arrogância e o nariz empinado vão tão bem com uma mulher jeitosa como um arroz que vai bem com todos.


Pronto, estive a tentar encontrar uma foto da PN na internet para validar esta minha veia de antropólogo e dei com uma de rosto, apenas. Nada mais. Ficando a dúvida no resto, pelo rosto a PN não vai lá. Definitivamente. Assim sendo, recomenda-se que a senhora coloque os pés na terra e que procure trazer um pouco de inteligência aos comentários que não se priva em fazer. 

Era só isto, um desabafo de um ouvinte que acha que o programa, mesmo assim, continua a ser excelente.
Porque Talk is cheap: https://www.youtube.com/watch?v=U18z1RofCsA

sábado, 26 de outubro de 2013

Gémeos

Não há nada que chegue a uns gémeos capazes de segurarem o cano de umas botas à D'Artagnan ou, se quisermos usar outra figura conhecida para passarmos a imagem dos gémeos que aqui tentamos descrever, uns gémeos capazes de susterem umas botas iguais às que usa o famoso gato das botas. Para que não fiquem dúvidas, aqui ficam as botas, mais o gato.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Imaginação versus realidade

Sou uma daquelas pessoas que foi tomada, definitivamente, pela falta de imaginação. Não teria nada de mal não fosse o definitivamente andar sempre de mão dada com o irremediavelmente. O irremediavelmente, por princípio, não deve ter remédio, não é assim? Não é que, nesta situação de pouca criatividade ou imaginação, eu esteja a procurar ativamente por um remédio para curar esta maleita, muito pelo contrário, preservo muito a falta que me faz a falta de imaginação. O que eu não gosto muito é de situações definitivas. Definitivamente, irremediavelmente, fatalmente, etc, são palavras que não definem em nada a realidade que, de forma empírica, podemos observar infinita e em constante mutação. Assim, nunca procuro remédios para as coisas que são, mas odeio quando alguém as tenta vender “definitivamente”.
Como estava a dizer, estou numa fase de falta de imaginação e, o que é engraçado, é que não tenho memória de quando ela, a fase, se iniciou. Deve ser sinal de que, provavelmente, sempre tive falta de imaginação, o que é bom. No meio disto tudo apenas o sempre, como já expliquei atrás, é mau.
Constatei este fato hoje, quando, por breves instantes, me pus a imaginar como seria a minha mulher de sonho. Comecei por pensar como teriam que ser os seus olhos, depois passei para o nariz e logo logo focalizei os lábios. Nada. Não havia azul marinho nem preto azeitona, empinado ou por empinar, rubro, brilhante, húmido ou quente que ajudasse muito à obra. Nenhum esboço conseguiu superar o que a realidade todos os dias me apresenta já de forma conjugada. A princípio pensei que imaginar olhos, narizes e lábios era uma empresa difícil por exigir muita especificidade e então voltei o meu pensamento, ou que me falta nele, a minha imaginação, para coisas mais amplas, maiores, menos particulares, mais à vista, e tentei imaginar o cabelo de sonho, o busto de fazer cair o queixo, o rabo de nos fazer ter quebras de tensão, as pernas de nos provocar brecas no olhar e constatei que também aí não havia meio de me surpreender ou de criar algo mais belo do que a natureza nos consegue deslumbrantemente apresentar. Decidi passar para coisas mais materiais e mais fáceis, vesti e despi gangas, entrei em modas mais clássicas e formais para logo passar para conjugações mais ousadas e casuais, acoplei óculos de sol, alguns redondos, outros mais ovais, outros a cobrirem metade da face, escuros e claros, para tratarem as miopias ou simplesmente para não deixarem cansar as vistas, vistinhas, moldei-os intelectuais ou mais informais, juntei um carro dos pretos, no início, para logo o passar a vermelho, desportivo, rasteirinho, dei-lhe cavalos quanto baste e com a cilindrada aumentei-lhe linearmente o volume, passei-o de desportivo a um todo-terreno, meti-lhe lá dentro umas botas de cavaleiro, perdão, de cavaleira, e a cavaqueira continuava na minha imaginação, um fato colado ao corpo, preto, um chapéu a proteger uns cabelos loiros, não, não, ruivos! não não, pretos pretos! também não, é claro que tem que ter cabelo mas chego à conclusão de que a cor não interessa muito, nem o tamanho, nem a forma, o que importa é a conjugação dos elementos, de todos os elementos, o que importa é o conjunto e a forma como ele se movimenta, o que importa verdadeiramente é o jeito, e é aí que a minha imaginação falha, ainda mais, muito mais, fatalmente.
Todos os dias, sem exceção, me deslumbro com as criações da natureza. Eu, que costumava dizer que era um homem que se apaixonava basicamente todos os dias devido ao simples fato de ser homem, chego hoje a uma outra conclusão, muito mais importante e real: Sou um homem que se apaixona basicamente todos os dias porque a minha imaginação de homem não consegue superar o que a natureza nos oferece como real.
Assim, e que isto não sirva para passar a ideia de que me estou a justificar, afirmo que o deslumbramento num homem não é um defeito, é apenas um coproduto da sua falta de imaginação.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Hotmail.com

Por que é que o hotmail.com não optou por se chamar hotnail.com? Era mais apelativo e teria, por certo, mais utilizadores, não sendo derrubado por um simples gmail. É claro que o gmail, como ofensiva, e porque essa equipe não deve nada à criatividade, poderia ter optado por se chamar gspotmail.com? 
Em relação ao hotmail, que se fosse eu a gerir converteria em hotnail.com, ou, ainda melhor, na sua forma pretérita perfeita de hotnailed.com, porque o pretérito imperfeito como o condicional hotwouldnail.com não dão imagem de obra feita, as possibilidades são imensas e que, a detalhar, dariam se não um livro, pelo menos um almanaque de bolso. Passar o hotmail.com a hotnailed.com é obra... é obra feita.

Estou em Frankfurt tentado a digitar esses endereços no browser para ver o que deles resulta e constatar se, por alguma desventura, alguém já os tomou para si. Espero que não, ou, por que não? espero que sim! Se é hot-nailed não teve mais do que merecia. Mau seria se fosse hot-unnailed.com. Era o chamado desperdício de tempo e de espaço. Quando chegar a casa faço essa validação, não a podendo fazer aqui pela inúmera assistência que tenho a espiar-me. É que não sei o que resultará de um desses endereços acima. Irei surpreender-me, não tenho a menor dúvida, com qualquer resultado ou não resultado.

Está prometido, quando chegar a casa vejo, depois de umas horas bem dormidas, que isto no avião e em económica dormir só é autorizado para os que têm abaixo de 1.65m.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Eu disse...

Tu disseste: Não sei se consigo...
Eu disse: Fazes isso de pernas às minhas costas.

http://www.youtube.com/watch?v=_y72Rf4vwlM

sábado, 9 de julho de 2011

Errata


Ontem fizeram o favor de me elucidar de que me teria engando no período de gestação humano quando escrevi o texto “O nascimento e as rabanadas”. São 9 meses de gestão e não 10, diziam-me. Nesse texto fui ao ponto de afirmar que cópula em Fevereiro dá os seus frutos lá para Novembro, já se a coisa fosse antecipada para Janeiro teríamos festa lá para Outubro.
Acabei por corrigir o texto passando o Janeiro a Fevereiro e o Fevereiro a Março. 

Ainda pensei duas vezes se o deveria fazer...

É que sendo eu um daqueles homens que contabilizada as duas semanas de galanteio e de ramos de flores, jantares à luz de velas, serenatas, ramos de flores, surpresas e prendas variadas, as chamadas a todas as horas para saber se está tudo bem, os ramos de flores, o telefonema antes de dormir e a mensagem ao acordar, os ramos de flores, as visitas aos shoppings aos cinemas e as boticas, os ramos de flores, tudo isto antes do comummente aceite “ato sexual” e mais duas semanas, imaginem!, de carinhos e outras doçuras depois do também comummente aceite “fazer amor”, acabando por se sobrepor todo este anteriori ao posteriori e ao ato em si, culminando tudo numa grande festa de afecto e dedicação, considerar 10 meses como o período de gestação para a minha classe até nem é tão errado como à primeira vista se possa pensar.
Decidi no entanto corrigir o texto uma vez que os homens da minha estirpe são cada vez mais raros e fica assim mais difícil de entender os 10 meses de gestação a que me referia no texto anterior.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O nascimento e as rabanadas


Estive aqui a pensar que para nasceres em Julho tiveste que ser feita em Novembro. Ora, Novembro é um bom mês para se nascer, como foi o meu caso, e não para se ser feito. É que uma queca dada (ou vendida) em Novembro requer muito mais energia e capacidade de abstração do que uma executada em Março - Até os gatos começam a andar com as hormonas nos pícaros em Março, não é verdade? É a natureza a pedir que se copule, forte, e feio. Em Novembro, as pessoas andam muito tapadas, o frio reduz alguns pénis à inexistência de 5 centímetros - a cópula requer menos 18 centímetros, sabias? -, o pensamento está mais para doces e outras formas de acumulação de energias e açúcares do que para quecas e outros modos de dispersar energia e de partilhar centilitros de saliva açucarada. Em Novembro o mel começa a ser comprado para ser gasto em rabanadas, mexidos e aletria e não com o propósito de ser suave e uniformemente aplicado na pele, amaciando-a. Todos os outro óleos estão mais na cozinha do que nos aposentos de hidromassagem. As noites começam mais cedo mas as novelas fazem-nos deitar à mesma hora; os dias começam mais tarde mas o trabalho obriga-nos a levantar à mesma hora. É todo um momento intelectual que se perde. E quem acaba por sair prejudicado com tudo isto? A cópula.
Isto tudo para dizer que tu és o fruto de um acto (não consigo escrever acto sem c) mais epopeico do que todos os outros bebés que nascem em Novembro ou em Outubro. Tu requereste muita mais energia e capacidade de abstração. No meu caso não foi preciso nada disso, foi só seguir o ciclo normal da natureza. O resultado, no final, deve ser o mesmo, pois nascemos todos com os olhos fechados, tudo o resto depende da palas que nos metem na frente ou dos lados, quando os abrimos. Nascer-se em Outubro é muito mais contranatura que tudo o resto. Os que nascem em Outubro são feitos em Fevereiro e, pressuponho, nem é preciso abstração, mais energia ou seguir o ciclo normal da natureza, é suficiente o descarregar da energia acumulada dos doces as festas natalícias.
Enfim, toda esta pseudoteoria com bases em ciência da que se faz em Sta. Eufémia seria válida se não olhássemos para ti e notássemos essa tremenda energia que transportas contigo e que te é congénita. Estou certo, e em modos de pergunta termino este texto, escrito para to dedicar, no início, mas que após as primeiras frases tomou caminhos que não enaltecem o standard de dedicatória alguma, estou certo dizia, de que nasceste prematura, não foi? É que, acho, o teu algodão energético não nos engana. Se assim foi, lá se fica por terra toda esta epopeia de gatos, rabanadas, energias, e cópula. Mas, sabes, não interessa. O que importa mesmo é que enquanto o escrevi pensei em ti. Parabéns! Desejo-te um estado Em Joy!

domingo, 15 de maio de 2011

Distância emocional

Todos os professores, gestores, videntes, padres, psicólogas, bruxas e políticos nos ensinam que devemos criar sempre uma distância emocional para a resolução de qualquer problema. Eu sigo-lhes o conselho. Não há nada como criar uma distância de -18 centímetros para que tudo se resolva.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O m(n)istério das burcas


Já te disse que tenho o desejo de despir uma mulher de burca?

Deve ser como quem desembrulha um grande presente, de onde não se sabendo o que esperar se pode esperar tudo, um grande urso de peluche ou uma bela princesa insuflável, um avião ou um triciclo. Um homem está ali a rasgar com cuidado o papel de embrulho, ponta por ponta, saboreando cada momento, com a emoção nos pícaros, à espera de se desiludir ou de se encantar.

Como em todos os países, deve haver de tudo por debaixo de qualquer tecido mais ou menos sintético, mas, despir uma mulher massivamente vestida de preto deve ser qualquer coisa massivamente deslumbrante! É como se nos pedissem para fazermos uma previsão dos destinos de um mundo olhando-o apenas nos seus pequenos e raros atributos, estimar o todo pelo que se pressupõe nas suas pequenas partes (só os deuses conseguem deduzir e generalizar, não?), ali, naquele mundo carnal, os olhos, os olhos que se querem pretos pretos, depois, pelos pequenos atributos mais sintéticos e banais, como os sapatos, que não se admitem sem salto, e o saco, que esse pode ser de qualquer cor desde que seja vermelho. É como se por ali, tudo o resto se desenhasse numa quarta dimensão visualizada por pupilas presas a uma tridimensionalidade castrante. Quando nos aproximamos do momento de um salto dimensional haverá, inevitavelmente, deslumbre ou a desilusão, com igual oportunidade de vingarem, impondo a este meu jogo espacial uma suave democracia.

Todas as estratégicas bélicas deveriam ser executadas (apenas) nestes momentos de embrulho e desembrulho. Só aí faz sentido falar em ataque e retirada, pela frente e por trás, em cima e em baixo, dentro e fora, e em que palavras como arrombamento, arrebatamento, arrebentamento passam a ter um óbvio propósito. Em que momento “ataque massivo” e “invasão” têm melhor aplicação?

Provocará mais adrenalina levar um tiro ou correr o risco de levar um tiro? E, sabendo-se do risco, contará mais levar um tiro derivado de um acto intencional ou passional? Um embate contra uma burca nunca terá nada de ingénuo nem de passional, para ambas as partes envolvidas nesse choque.
 
Cada burca que consigamos despir representa mais que um golpe a um regime totalitário. É como se se implantasse uma democracia por cada burca deixada abandonada no soalho.