sábado, 6 de abril de 2013

MCM TOP TV – Nº1 Portugal


Claro, mais uma vez nos meus headphones passava isto https://www.youtube.com/watch?v=QMs9rQ-hMXI , ou isto http://www.youtube.com/watch?v=iEXyuw1gBV4 , enquanto na MCM TOP TV passava algo que anunciavam como o Nº1 no Top Português, Anna Free, com Electrical Storm, isto: https://www.youtube.com/watch?v=E6RBpVhP48o
Como não estava a ouvir o som concentrei-me na imagem e tentei entreter-me a adivinhar a nacionalidade daquele belo rosto com nome de Anna Free. Só com muito esforço poderia ser português, isto é, o seu tom de pele ou os seus olhos escuros poderiam ser de uma qualquer portuguesa mas não o resto. E o resto era quase tudo, era a beleza oval do rosto, as orelhas de uma ternura esquisita, um nariz a marcar-lhe o rosto sem se demonstrar, e um queixo bem desenhado mas que nem assim conseguia atenuar toda a beleza do seu sorriso. É evidente que se esforçássemos as vistinhas, num considerável esforço - que fique claro, poderíamos ainda assim deixar passar esta linda Anna como uma bela lusitana, não fosse o seu corpo, que feito de sensualidade pura estava longe, para o lado mais positivo, da sensualidade roliça que caracteriza as portuguesa. Estava então neste debate interno de que nem aquele corpo nem aquela beleza eram de uma portuguesa, muito menos o era o nome, que Free qualquer tuga teria a liberdade de escolher, agora, Anna, com dois énes, somente uma pessoa com muito bom gosto poderia adoptar. Depois, nenhuma portuguesa com aquele nível de beleza sabe sorrir assim com tanta empatia. As portuguesas bonitas sabem que lhes é dado o direito a serem antipáticas e usam-no com uma propriedade inquietante.
Apostei pois na nacionalidade libanesa, de Beirute para ser mais específico. Não há outro lugar no mundo onde a mutação da natureza, consequência de toda a estratégia tentativa-erro,  naquele tom de pele, tenha resultado tão bem e as tenha feito assim tão belas. Anna é uma libanesa sem necessidade de intervenção estética ao nariz que, como já se disse atrás, nada tem de empinado. 
Como não gosto de errar nas minhas análises, dediquei a esta um pouco mais de tempo, refinando-a, como se faz com o açúcar que providencia a parte mais agradável das coisas em que se mistura, abstraí-me pois do movimento da Anna para me focar nos fundos estáticos e assim tentar chegar a uma aferição da nacionalidade não pela personagem mas através dos cenários. Os edifícios e a cidade não eram libaneses, muito menos eram Beirute. Estava tudo muito inteiro, integrado e equilibrado, faltava ali a mistura das fachadas espelhadas do que outrora fora a Suiça do médio oriente com todas as outras, esburacadas e arruinadas pelos raides israelitas. Beirute é um anfiteatro aberto ao mediterrânio e à artilharia israelita e, nos intervalos de cada acto, uma bomba que implode de conflitos religiosos e políticos internos. Definitivamente, aquela cidade não era Beirute nem estava no médio oriente. Era algures na europa, notava-se pela cor e pela serenidade que Anna com o seu movimento tentava aniquilar. Parecia-me Londres mas a Anna de londrina nada tinha. O tom da pele não me deixava ir mais para Este também geneticamente agraciado pela mãe natureza. Acabei por ficar na europa central, central mas na sua parte mais latina, mais precisamente em França. Sim, a Anna poderia ser francesa ou então italiana. Para mim seria francesa até que uma pesquisa atenta na internet, após uma intensa hora de ginásio, o (des)confirmasse.

Como estava enganado!

Anna Free is the stage name of Ana Gomes Ferreira, a singer, musician, songwriter and performer who has had a series of top-five hit singles, including 4 number one hits, in Portugal.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MCM TOP TV



Hoje, enquanto me distraía das nádegas gelatinosas de uma tuga que frequenta dia sim dia sim o mesmo ginásio que eu, vi esta música ser arruinada pelo grande (en)cantador Bastian Baker (BB) na MCM TV: Hallelujah.
Existem apenas duas versões do hallelujah, a primeira do seu grande criador, Leonard Cohen (LC), e a segunda, do enorme Jeff Buckley (JB), que a tornou célebre e irrepetível. Tudo o resto é ousadia a ser gasta na direcção do fracasso.

Aqui estão as 3:

O Halleluijah traz na letra o elogio ao amor, na melodia uma gigantesca dose de compaixão, na voz a encarnação da leveza. Não precisa de mais nada, ou, reformulando pela positiva, dispensa o resto, a imagem, o filme, a desilusão em que a película muitas vezes se torna quando comparada com a criação feita no processo de pensamento. É aqui que reside a principal diferença entre as duas primeiras e a terceira, bem como tudo o resto que por aí se faz em termos de som, imagem, ou, de uma forma mais geral, arte. Há músicas que precisam de um bom filme como há filmes a precisarem de boas músicas para se tornarem em aparições da perfeição. LC e JB fizeram coisas perfeitas na área da música (O LC ainda nos pode surpreender, ou desiludir, e esse é o problema. Daí a minha classificação de grande para LC e de enorme para JB).
A versão do Bestian Bacon precisa de um filme que reduz o amor a um corpo, a compaixão à comiseração do mesmo corpo quando vê a sua existência ser preterida demasiadas vezes na presença da guitarra, e a leveza ao estereótipo muito bem criado por Milan Kundera (MK) no seu soberbo livro A Insustentável Leveza do Ser, que é em grande parte feito de um quarto que também é um estúdio onde se executam processos criativos, de uma cama meia feita meia por fazer, de um espelho, de um chapéu, de pouca roupa, de uma Sabina, um cheiro, um Tomaz, de todo um desnorte.
Ou seja, esta versão do Halleluijah de BB, para além de necessitar de um filme para existir, baralha tudo de uma tal forma que é o filme que passa a necessitar de uma música para não cair na inexistência. Como já se viu, não sendo o desempenho musical suficiente para dar existência a tal filme, acabam por se anularem mutuamente, implodindo como implodem as galáxias em fim de vida.

Com este videoclip não perdi tudo...
Apesar de ser claro existir mais acção em meio segundo de nádegas gelatinosas da tuga do ginásio do que nos 4 minutos do videoclip, nunca umas nádegas como aquelas me despertariam a vontade de reler MK e a forma como um espelho reflectindo uma mulher nua e um chapéu formosos definem tão singularmente o conceito da leveza. Deve ser o espelho que ao reflectir dá igual existência subtraindo-lhe o peso da responsabilidade dos corpos. Pode ser também dos corpos despidos das responsabilidades dos trajes, ou, apenas porque existem espelhos existem homens existe o desejo mas não existe aquilo que Jorge Luis Borges classificava como a abominável multiplicação dos homens: “A paternidade e os espelhos são abomináveis porque multiplicam o número de homens”.

Existir sem multiplicar é de uma leveza fascinante.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

David Carreira – Falling into you

http://www.youtube.com/watch?v=zXUOsIdlHEo


Para que o cenário fique esclarecido logo no princípio do verbo, eu estava num ginásio em Lausanne quando de repente, multiplicado pelos vários ecrãs da sala, vejo o Nuno Graciano a abrir a porta do que parecia ser uma discoteca ao internacionalmente (re)conhecido Paulo Futre. Caí com a minha atenção toda dentro do vídeo-clipe, naquela grande metragem que leva lá fora o bom nome de Portugal. Completando a descrição, nos meus headphones passava isto, ou isto , isto para que não se criem falsas impressões.

Depois de observar que se tratava mesmo do Paulinho, lá tentei esforçar a vista para ver quem era o músico que ali actuava. Lá estava ele, David Carreira, com a música “Falling into you”, que em Português de Portugal deve dar qualquer coisa como “Pequeno falo dentro de ti”.
Sem tirar os olhos do ecrã, e os ouvidos dos meus ocultadores, tentei entender quem é que caía dentro de quem, movido, a princípio, por uma curiosidade meramente antropológica. É que cair dentro de alguém para além de todas as questões metafísicas e biológicas levanta também alguns desassossegos mais psicológicos ou emocionais.  Cair desamparado dentro de alguém deve ser emocionalmente impressionante ao passo que fisicamente deve ser de uma leveza esgotante.

A discoteca deixou-me de queixo caído e com um irremediável sentimento de tristeza pela ideia do que tenho andado a perder devido à minha falta de faro em encontrar os locais correctos e os ambientes acertados. Os bares mais sofisticados que conheço são os de Braga, vejam a minha triste sina! E mesmo lá, onde o ambiente é de uma forma geral acima da média, não vejo pessoas tão esbeltas e bem vestidas. Tirando a gorda que aparece desfocada ao fundo da sala do outro lado da piscina,  todos os portugueses naquele vídeo-clipe estão subaproveitados. Os olheiros de Hollywood que tratem das olheiras pois não andam a executar com propriedade a função que lhes foi incumbida. Pessoas bonitas, bem vestidas e ainda por cima com bom gosto musical não deviam estar assim abandonadas ao pé de uma piscina onde, ainda por cima, poucos nadam.

Rien Jean-Pierre, Rien!

No final do vídeo, só mesmo no final, chegamos à conclusão que não entendemos o guião, o propósito, a missão. A falta deve ser minha, no entanto, não compreendo como se consegue pegar num tema tão bom e não aproveitar para o dissecar. Cair dentro de alguém é trama para 500 teses de 500 páginas cada uma. Ali, nem uma foi aproveitada. Alguém caiu dentro de alguém sem ninguém dar pelo facto e não se aproveitou para se estudar a força do atrito ou da falta dela. Essa força que confirma o que os físicos tanto procuram, que as coisas não são feitas só de energia, que também têm massa. Alguma massa. Fusilli ou outra qualquer, com pouco sal.