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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O tamanho do presente

Para quem tiver interesse na matéria, deixo aqui ficar um livro/trabalho onde se explica, do meu ponto de vista, bem, o que é a parapsicologia e de que forma foi evoluindo até se tornar em ciência.

Algures, onde esclarecem o que é a precognição, dizem: A precognição é o conhecimento antecipado de factos normalmente não previsíveis. E depois continuam mais ou menos nestes termos: O que chamamos de futuro é o presente não percebido. Presente é tudo o que percebemos. Assim o presente de cada ser humano é do tamanho da sua percepção.

Basicamente passam a mensagem que o nosso presente é a percepção da nossa mente consciente e que esta está condicionada pelos limites da nossa existência física. O conceito do espaço/tempo aplica-se às coisas físicas.
 
Como ainda não compreendemos bem os limites da nossa percepção extra-sensorial, por assim dizer, da percepção da parte inconsciente da nossa mente, desconhecemos o tamanho do nosso presente.
A precognição pode assim não ser mais do que a "simples" leitura do presente para percepções mais alargadas.

Assim, sem estar à espera de muitas surpresas neste trabalho disponível na web, encontrei esta análise que me deixa com vontade de continuar a aprofundar o tema, um tema com muito pano para muitas mangas ainda por coser.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

É do diabo III

Depois de alguns anos a ver novelas chorando ranho sobre o meu karma, e o dos outros, eis que me começam a surgir alguns livros interessantes sobre química, da fácil, daquela que se aprende sem intenção de se aprender ou, que se aprende nos manuais amarelos do tipo “química para totós”. Destaco, sem quaisquer dúvidas, o Aldous Huxley com o seu Admirável Mundo Novo ou o seu “As Portas da Percepção” mas posso ir muito mais longe, não em conteúdo mas na mesma direcção, e chego aos admiráveis livros de Carlos Castaneda, como “A Erva do Diabo”, que nada tem a ver com o demónio ensinado na doutrina mas que, juntando bem as coisas, percebe-se a sua base comum e os seus efeitos semelhantes. Com estes livros, comecei a aperceber-me que ambos, o religioso -ou a pessoa que faz meditação, como iremos ver mais à frente - e o indivíduo sobre o efeito de alguma substância química sofrem alterações do estado do seu cérebro que lhes faz aperceberem-se de outros cenários e outras variáveis, reais ou inventados. Tudo se deve a essa alteração química que constantemente se opera no nosso cérebro e que na sua versão mais suave ora nos dá a sensação de alegria ora nos dá a sensação de tristeza.

Aldous Huxley descreve em “As Portas da Percepção” a sua experiência de todas as vezes que injectava de forma assistida, com um médico ao seu lado, mescalina no sangue. As suas descrições dos objectos reluzentes e maravilhosos, as suas sensações de alegria, a sua percepção acima (?) do normal estão em linha com as descrições que lemos em alguns livros na área da meditação ou artes orientais como o yoga. Comecei a encontrar um paralelo nestas descrições feitas pelas pessoas que atingem um estado de “iluminado”(?) e as descrições feitas por estas pessoas que mascavam, fumavam (Ler a Erva do Diabo de Carlos Castaneda) ou injectavam substâncias que podemos chamar de alucinatórias. Ora, se verificarmos que em todos estes momentos de meditação yoga, ou outra qualquer, há sempre uma mudança na forma como respirarmos e, se continuarmos a seguir o fio lógico do raciocínio, entendermos que o oxigénio é quem alimenta o cérebro, então com a meditação estamos de certa forma a alterar pelo menos esse fluxo de oxigénio, e, para terminar esta lógica se isto então aquilo, então estamos também directamente a alterar o seu estado químico e o efeito que daí advirá será o mesmo do descrito no “As Portas da Percepção” ou no “A Erva do Diabo”.

Como é que um religioso tem mais facilidade em ver uma figura que não existe, como o diabo, que outra pessoa que não é religiosa ou supersticiosa é uma questão que só vi respondida muito mais à frente lendo Óscar Quevedo ou mesmo António Damásio.

Ainda não é para lá que esta sequência irá. Alguns anos antes, e da mesma forma que os livros onde indirectamente se falava de química e do seu efeito no cérebro me chegaram às mãos, começaram a aparecer sugestões de livros de física, como “A Breve História do Tempo” de Stephen Hawking ou, melhor, muito melhor, sobre os espaço que também é tempo ou sobre o tempo que também é espaço, escrito um século antes, O País Plano de Edwin Abbott...

sábado, 10 de abril de 2010

É do diabo II!

A minha sequência “é do diabo” começou com “O Livro dos Espíritos” de Alan Kardec que lido com 18 anos tem um impacto que abala completamente com toda a (in)doutrinação católica. Deus continua ali a existir e o seu jogo também, mas as regras mudam um pouco, para melhor. Há mais benevolência, podemos dizer. A vida passa de um big brother em que o seu final acaba no céu ou no inferno a um big brother com vários níveis em que se pode evoluir ou regredir mas que no final tudo acaba em bem. O inferno deixa de existir e para remissão dos pecados o jogador tem em seu lugar a oportunidade de voltar ao início encarnando sempre um papel diferente, dependente da jogada anterior. O purgatório também não existe e mais uma vez o utilizador tem na reencarnação uma possibilidade de se redimir em circunstâncias melhores se jogou bem ou bem piores ou adversas se jogou mal a partida anterior. Deus continua ainda a espiar os nossos pensamentos e acções.

Como no jogo católico o objectivo é melhorarmos a nossa condição espiritual mas aqui a recompensa é reentrarmos nele em melhores circunstâncias até a um ponto que as necessidades materiais essenciais à existência desaparecem e nós passamos a estar mais perto do paraíso.

Para mim passou a fazer mais sentido. Ali Deus Ama a humanidade um pouco mais e Dá-lhe mais oportunidades de encontrar o caminho certo. No cristianismo Ele ama-nos mas no final podemos ir parar para todo o sempre ao inferno.

Se no catolicismo temos mais a ideia do diabo, no espiritismo passamos a ter a ideia de que existem algumas almas nossas irmãs que andam perdidas no universo e que por vezes se tornam um empecilho do jogo.

Ambas as corrente quase desresponsabilizam quem comete os actos ou as acções, ou porque estava escrito no karma ou porque estava escrito noutro lado qualquer, como no destino, na sina, etc. Ora, já tinha que acontecer assim, já estava escrito, coitado, ouvimos muitas vezes dizer.

Confesso que nunca acabei de ler o livro dos espíritos da mesma forma que pecador me confesso por nunca ter lido a bíblia (o ir diariamente à missa até à maior idade não conta como leitura), com 18 anos por medinho da nova ideia de reino do céu, e com 28 porque se fosse seguir à risca aquelas escrituras então não poderia jamais aproveitar alguma das coisas boas da vida, ou, melhor, talvez porque à luz daquelas regras me senti completamente sem remissão, sem salvação, em pecado.

Alguns livros se seguiram a corroborar esta ideia, todos bons, alguns assustadores, alguns reconfortantes, outros tentando passar uma ideia de esperança sempre mais sob a responsabilidade de entidades superiores do que sob a nossa própria responsabilidade e livre arbitro. Lembro-me do “Muitas vidas muitos mestres” de Brian Weiss que gostei de ler. Um grande livro.

Depois de alguns anos a ver novelas chorando ranho sobre o meu karma, e o dos outros, eis que me começam a surgir alguns livros interessantes sobre química, da fácil, daquela que se aprende sem intenção de se aprender ou, que se aprende nos manuais amarelos do tipo “química para totós”. Destaco, sem quaisquer dúvidas, o Aldous Huxley com o seu Admirável Mundo Novo ou o seu “As Portas”...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

É do diabo!

É do diabo seria um bom título se o diabo realmente existisse. Como se pode ler no “Antes que os demónios voltem”, de Óscar Quevedo, e lá lhe iremos mais à frente e com maior detalhe nesta descrição, os demónios não existem e, por conseguinte, parece muito mal começar um texto com um título mencionando uma entidade inexistente. É uma questão de credibilidade. Um texto avalia-se pelo título da mesma forma que um melão se avalia pelo cheiro e pelo som do toc toc da casca. Há pessoas que pensam que podem anteceder o seu sabor, sumo e doçura analisando-o por fora. Às vezes enganam-se, também os títulos às vezes nos enganam e, quando assim é, tendo em conta que as falcatruas financeiras em Portugal dão raramente lugar, as que dão, a alguns anos de prisão, também esta falcatrua que alguns escritores nos passam em alguns títulos deveria dar pena de cadeia. Eu já fui enganado em alguns livros e em alguns textos que acabei por não finalizar. Isto é uma falcatrua financeira se contabilizarmos o dinheiro que investi no livro e o tempo que disponibilizei na sua leitura que, felizmente, tive o bom senso de não terminar.
O que aqui pretendemos descrever, e aqui uso a primeira pessoa do plural não pela estratégia literária do plural, porque, como sabemos, uma tese, um texto ou uma teoria, descritos no plural, passam uma imagem de uma maior credibilidade e, vou mesmo mais adiante dizendo que a primeira pessoa do plural está para os documentos anteriores, e para outros que se possam inventar, com a mesma força de vendas que um escritor encontra num bom título, uso o plural, estava a tentar dizer, porque de facto o que vou aqui descrever representa a minha interpretação do que alguns escritores escreveram e assim, acho-me com propriedade para usar do nós uma vez que a minha interpretação está em muito dependente do que eles escreveram, isto é, se eles não tivessem escrito da forma que o escreveram eu não os teria interpretado da forma que os interpretei, assim, o que aqui pretendemos descrever é uma sequência de livros, entre muitas, que pode desmobilizar um católico do seu catolicismo fervorante tornando-o, se não num ateu convicto, pelo menos num agnóstico que não negando a existência de Deus, também não a afirma porque, para ele, o Agnóstico, não há evidência e o nosso estado de entendimento não é suficiente para compreendermos se Deus existe ou não. Este conjunto de livros que pretendíamos chamar de “É do diabo” é apenas uma sequência saída do acaso. Uma sequência em milhares de sequências possíveis, sendo aqui que reside toda a beleza da leitura. Leitura que nos muda e que muda a forma como nos lemos. Um livro puxa outro e o outro leva-nos ainda a um outro. Depois há livros que nos caiem nas mãos sobre os temas mais oblíquos mas que de alguma forma acabamos por relacionar e integrar na nossa sequência, que, como já disse, não se pode chamar de muito própria porque ela depende desta relação promíscua escritor leitor, mas que se pode pelo menos apelidar de uma sequência com lógica interna própria.

A minha sequência “é do diabo” começou com o “O Livro dos Espíritos” de Alan Kardec…

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Hei-de amar uma pedra

Como já tive oportunidade de dizer, Antonio de Lobo Antunes é um dos melhores escritores do nosso tempo. Se tivesse que fazer uma comparação com Saramago, diria que este, Saramago, é um senhor de grandes ideias, veja-se por exemplo como começa o seu Intermitências da morte, em que “no dia seguinte ninguém morreu”, e como acaba o mesmo livro, em que, pasmem-se, “no dia seguinte ninguém morreu”, e diga-se, grande imaginação!, e poderíamos continuar com o seu Ensaio sobre a lucidez em que não poderia começar de melhor do que um “Mau dia para votar”, como se houvesse em Portugal algum bom dia para votar quando se analisam as aberrações que o bendito ócio promove e encarrega de nos governar, bem, como estava a dizer, se tivesse que fazer a comparação com Saramago, diria que este, ALA, ALA de António de Lobo Antunes e não ALA de Alá nem de Alibábá, é um grande escritor, um dos maiores escritores do meu tempo, enquanto por aqui andar. A forma como o seu Cús de Judas foi construído, o seu segundo, livro não cú porque cú mesmo com silicone só se tem um, não deixa margem para dúvidas nem muito espaço para qualquer avanço ou progresso literário, porquê, porque é um livro prefeito nas frases, nos parágrafos, nos capítulos, perfeito literariamente, literalmente, é literatura da melhor e pronto. Já Saramago é mais ideias o que é muito bom uma vez que a maior parte do povo português, quer viva dentro ou fora de portas, e por mim falo, é mais bolos, bolas literárias ou bolas desportivas, diárias, para agravar a situação.


Estou a ler o Hei-de amar uma pedra por causa do título e porque haveria que entrar por algum lado, e, tenho a certeza, que os verdadeiros críticos literários iriam dizer-me, Hei-de amar uma pedra?, olha, rapaz, “Não entres tão depressa nessa noite escura” e lê-lhe antes o “Livro de Crónicas” ou o “Segundo livro se crónicas” que é mais para a tua idade. Mas eu sou uma pessoa de ideias fixas, e continuo a ler o Hei-de amar uma pedra. Confesso que está a ser difícil. Confesso que, como o livro é grosso e está a dar para muitas viagem e algumas meias horas de cada uma das minhas meias-noites, às vezes chego a pensar que o ALA ou a gráfica se enganou no título. Este livro, desconfio, nunca se chamou Hei-de amar uma pedra, e, porque não o entendo, acho que antes do engano na impressão o verdadeiro título era “Acabei de fumar uma pedra”, um calhau dos grandes, diga-se. Este livro está a ser pesado. Depois conto-vos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

António...

Estendido numa cova à espera que o ataque acabasse, olhando as hirtas sinhuetas de chapéu alto dos eucaliptos idênticas a fúnebres testemunhas de duelo, de G3 inútil no suor das mãos e o cigarro cravado na boca como palito em croquete, descobri-me personagem de Beckett aguardando a granada de morteiro de um Godot redentor. Os romances por escrever acumulavam-se-me no sotão da cabeça à maneira de aparelhos antiquados reduzidos a um amontoado de peças que eu não lograria reunir, as mulheres com quem me não deitaria ofereceriam a outros as coxas afastadas de rãs de aula de ciências naturais, onde eu não estaria para as esqueartejar com o canivete ávido da minha língua, o filho por nascer constituia apenas a cristalização improvável de uma distante tarde de Tomar...

...de Lobo Antunes

Um dos melhores escritores que algum dia li. Não tenho dúvidas de que será o próximo nobel da literatura.

domingo, 20 de setembro de 2009

Decadência

A decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

Fernando Pessoa. O Livro do Desassossego.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Categoria

Categorizar resulta sempre num processo redutor da verdadeira complexidade, li algures num livro (O cisne Negro de Nassim N. Talec), e pensei que essa redução de complexidade é apenas um co-produto desta necessidade humana de ter a realidade sob controlo, ou, se quisermos usar outros termos, esta necessidade de ver a realidade de forma inteligível ou explicável ainda que se inventem falsas explicações. Então categorizar é, mais do que um processo redutor, a forma que nós, humanos, conseguimos inventar para melhor lidarmos com a realidade. Depois pensei sobre a categoria (ou a pinta) da minha última categorização e na forma como se estraga um texto que no início parecia sincero. Noutro dia no metro descobrir que categorizo as mulheres em 2 grandes grupos, as que comia e as que não comia de todo. Às que não comia não há mais nada a fazer parando aí com alguma categoria a categorização. Às que comia divido em 2 grupos, as que comia mais do que uma vez e as que só comia uma vez. Às que comia só uma vez não se pode fazer mais nada e nem interessa criar aí subcategorias, mas, às que comia mais do que uma vez consegui dividir ainda em mais 2 subgrupos ou subcategorias, as que comia e dormia e as que só comia mas era incapaz de dormir. Pode pensar-se que iria aqui subdividir o grupo das mulheres com quem não conseguia dormir em duas subcategorias, as que não conseguia dormir com medo de ficar sem os rins e as que não conseguia dormir porque simplesmente não consigo dormir com uma mulher que não me traga a paz necessária para eu conseguir dormir, mas não, ao grupo das mulheres a quem só conseguia comer, mais do que uma vez é certo, não há muito a fazer, não consigo dividir mais, a razão para não dormir é sempre a mesma: não me trazem a paz necessária para dormir, já em relação às que comia mais do que uma vez e até conseguia dormir divido ainda em 2 grupos, aquelas a quem comia, dormia e ainda preparava o pequeno-almoço e as outras, as que não me merecem a preparação do pequeno-almoço. Como se sabe em relação às que não me merecem o pequeno-almoço não há muito mais a fazer ou a dividir, já as outras, dividiria em 2 grandes grupos. Dividiria se o metro não acabasse por chegar à estação que fica mesmo em frente à minha casa.
Vou dormir que esta categorização com categoria, ou pinta, está a deixar-me agoniado.

domingo, 6 de setembro de 2009

e tu?

"Eu quero, e tu?"

Fernando Pessoa

sábado, 23 de maio de 2009

Amor de Perdição

Acabei de ler o Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. Sim, ouviram bem, não foi de reler o dito romance mas de o ler pela primeira vez. Eu sei, é vergonhoso, e então em Portugal é tão vergonhoso que nem se fala! Mais vergonhoso seria escrever, como boa gente o faz, que acabei de reler o Amor de Perdição. Em Portugal já não se lê, só se relê. Acontece com tudo, do principezinho que ninguém acima dos 15 lê, só relê, passando por qualquer clássico que é até pecado dizer-se que se está a ler em lugar de se estar reler, acabando nos menos clássicos. É claro que se a literatura for considerada cor-de-rosa, aí já ninguém lê nem relê. O que acontece em relação à releitura também se verifica na televisão ou cinema. Ninguém vê grandes séries em DVD, só se revê. Já fui várias vezes crucificado por assumir que quero ver a serie seinfeld em DVD. O seinfeld não se vê, revê-se.
Bom, apesar da vergonha que neste caso é ler, gostei de o fazer em relação ao dito romance e fiquei até severamente surpreendido pelo mesmo ter sido escrito, segundo o autor, em 15 dias! É que, se por um lado, quinze dias é o tempo que algumas pessoas que hoje saem da universidade precisam para escreverem um simples correio electrónico sem muitos erros, por outro, os mesmos 15 dias não deram ao autor espaço para que este se perdesse em descrições e floreados banais sobre as quecas que Simão Botelho deveria ter dado e não deu - e já lá vamos ao resumo deste grande romance com Simão como protagonista -, tornando-o assim numa obra sublime.
O romance parte de uma base que não é possível no nosso tempo. Os telemóveis, por um lado, a sociedade monogâmica só de papel, por outro, o respeitinho aos pais que agora não existe, etc, impossibilitavam a história que se resume ao seguinte: Simão é o homem que tem ao seu redor (ou quase) duas mulheres jeitosas que gostam dele de forma idêntica – sob a forma de amor. A Mariana que o nome como o carácter não lhe permitem um diminutivo e, a menina Teresinha que, em algumas fases do romance, aparece tão diminuída quanto o seu nome. No final morrem todos, como seria de esperar, e é que, tristezas das tristezas, nem uns beijos trocaram! É história possível só naquele tempo. Hoje uma chamadinha de telemóvel ou mesmo o recurso à internet deitariam tudo a perder e a falha de comunicação que em grande parte justificou o desfecho trágico romance não poderia acontecer, o mesmo seria dizer, que com telemóvel não haveria romance ou pelo menos um romance com o impacto que este teve na altura. A relação entre pais e filhos era como nenhum dos jovens de hoje com menos de 20 anos consegue sequer imaginar: De respeitinho! Fugir com a filha de outrem é coisa aguerrida de século XX ou XXI. Até o raio das freiras eram naquele tempo mais porreiras e condescendentes com pessoas dadas ao amor entre homens e mulheres.
Para dificultar ainda mais uma história como aí se descreve, temos a monogamia que hoje só se assina no papel e não no coração. Simão achava que amava a Teresinha e as circunstâncias (o pai da menina) não o deixavam alcançá-la. Por outro lado tinha a Mariana ali à distância de um dedo e que o amava incondicionalmente e de corpo inteiro, como a Teresinha, e não lhe ousou sequer tocar nos cabelos (burro!) porque o seu amor já estava, digamos, como que destinado. Hoje em dia já não se ama assim, nem de coração, nem de mente e muito menos de corpo. A sociedade monogâmica de hoje não permitiria um amor de perdição como antigamente.