quinta-feira, 3 de junho de 2010

Alfândega II


Trago numa das malas, um fato Pierre Cardin novinho em folha, comprado em Riyadh com 85% desconto, que lá é mais batinas e burcas. 85% de desconto fazem dele, em termos de custos, um fato comprado na feira de Carcavelos, não fosse o facto de a senhora da alfândega, que no aeroporto do porto é uma pândega, ter reparado na etiqueta de composição: 70% algodão, 20% seda e 10% caxemira. Deve ser caro interroga como quem afirma, tentando encontrar a resposta na hesitação do meu olhar. Digo-lhe que não, que foi comprado nos saldos e tal. Abrindo ainda brechas naquela situação já de si fracturante, pede-me a factura. Mexo e remexo na desorganização da minha mala do computador com a minha memória a jurar que a tinha colocado no seu interior, mas, nada de nada. Tiro tudo fora, algumas canetas, outras facturas amarelas e a caírem de velho, alguns cabos USB e carregadores de telemóvel, um pequeno kit higiénico composto por desodorizante, pasta e escova de dentes e um pente que não uso, uma colher não vá ter que comer algum iogurte ou outra coisa mais doce, alguns toalhetes refrescantes, nada frescos, esquecidos num dos pequenos bolsos, uns preservativos velhos e secos, não usados, claro, como o atestado mais fino e assinado do totó que às vezes sou, e nada mais. A minha memória continuava a lembrar-me da factura que as minhas mãos ali dentro, algures, colocaram. E nada.
A senhora afirma que aquele fato era de facto menino para custar uns 700 euros. Dei uma gargalhada que aqui deveria descrever como um lol e disse-lhe que não senhora que me custou apenas uns 100 euros. Foi então a sua vez de gargalhar sem lol usando um sustenido ali algures entre um DO e um RE ou um FA e um SOL. Depois continuou a dar-me música dizendo que ou pagava já os impostos a estimar para o fato ou que poderia apresentar a factura depois. Optei pela apresentação da factura que entretanto apareceu na mala dos fatos. Tinha lógica, só a minha memória achou que não fazia lógica nenhuma colocar a factura junto com os fatos. Acabou por não ter piada nenhuma.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Alfândega I

Na alfândega do aeroporto Francisco Sá Carneiro é uma pândega. Não falho uma. O pequeno deus de bigode, que não sofre de hipermetropia, porque, qual águia de voo rasteiro, consegue ler as etiquetas ao longe, manda-me seguir para a zona das revistas com um gesto de braço – eu, que consigo fazer muito mais com um dedo, nunca me apresento com aquele olhar altivo de quem pensa que possui um pedaço de mundo – ao que, fodido, assinto.
Lá dentro perguntam-me se trago alguma coisa nas malas. Cuecas e meias, respondo, para demonstrar o meu desagrado. Já me deviam conhecer uma vez que me tornei cliente habitual, no último ano. Já deviam saber ler que aquela minha cara, para eles de cu, é mesmo de um “cara que está prestes a explodir, né”? Eu sou da opinião de que as caras de cu não devem explodir por causa do trabalho que dão a limpar os detritos. Todas as caras de cu deviam implodir, como uma singularidade, sem deixarem rastro, como um fragmento de silêncio. O pequeno deus de bigode tem cara de cú. Eu acho… Já deviam saber, estava a dizer, que da arábia saudita só se pode trazer areia e camelos e que Portugal está já a abarrotar dessas duas espécies, de cima a abaixo. Bom…, a senhora das revistas sorri mas nem assim deixa passar a minha que irá ser em vão. E mergulha uma das mãos com látex bem no centro dos meus boxers suados, devagarinho, com muita calma, sem amor nem piedade, parece-me, mas que há ali aquela emoção de quem se afunda no escuro à procura de ovos, isso não duvido nem por um segundo. Toca-me com igual carinho, sensibilidade, precaução e nível de adrenalina provocado pela grande possibilidade de surpresa, nas meias, como quem apalpa uma perna de tíbia partida.
Começo a achar piada... (continua)

terça-feira, 18 de maio de 2010

domingo, 16 de maio de 2010

Beiruting

Beirut, 2010

Fa©tos

=> Não lhe tocarmos no corpo é a forma mais certa de ficarmos com um pedaço da alma de alguém, não achas?

=> Ainda não fui à Índia. A Índia ainda não está preparada para me receber.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Fa(c)tos

 While Braga is the city of the 3 Ps, Priests, Prostitutes and Paneleiros (gays), Beirut is the city of the 3 Bs: Beauty, Breasts and Bisturis. I would say the beauty is pretty enough to make the bisturis useless. The question here is the bisturis want to make the natural beauty “fashion less”. We will found a lot of stupidity there, too. But stupidity starts with S.

 No hotel Rotana Gefinor em Beirut para além de um upgrade para um quarto que mais parecia um apartamento ofereceram-me um cesto de frutas nada de especial, não fosse o facto de entre bananas, uvas, peras, laranjas e tangeras aparecerem 4 ou 5 nêsperas, aquele fruto alaranjado que no norte de Portugal também chamamos de maganórios.

 - Atention Antonio, these guys were already one of the most advanced civilizations, and they did a great finding for humanity. They found the number Zero.
- Yes, it is true, they found the number 0, the problem is that they are still living around there.

Fa(c)tos

 Embora se estabeleçam critérios que o tentem definir de uma forma mais objectiva, nunca até aqui se conseguiu criar uma medida geralmente aceite para quantificar o desenvolvimento de um país ou de uma cidade. No meio de tanta relatividade, que tem que ver com parâmetros de economia, lei e justiça, bem-estar e segurança, etc, consegui chegar à medida que se vai revelar como o principal indicador do desenvolvimento. Chama-se: buzinadela.
O nível de desenvolvimento de um país ou de uma cidade está inversamente relacionado com o número de buzinadelas, ou BZA, ouvidas dos seus carros nas ruas lá do sítio. Portugal aparece finalmente no topo da lista dos países desenvolvidos. A índia ocupa um dos últimos lugares da lista. A acompanhá-la estão os países do médio oriente. A buzinadela é a forma mais histérica de se dizer “foda-se” nestas zonas.

 I like french. You like French?! Yes, definitively. Hum, I like French too… on the lips of a girl, only.

 Pensar positivo:
Quando te sentes transparente ou, melhor, quando achas que ninguém te olha e começas a duvidar se não terás morrido e só tu não deste conta do facto, pensa positivo e sem dúvidas: O comportamento das pessoas que passam na rua deve-se ao facto de estares a ficar mais magro. É muito mais difícil de ver uma agulha que um móvel 4 por 4.